Depois de conseguir a cura de Guillain-Barré, doença rara, a estudante de nutrição, Gabriella Kundzim Correa, de 34 anos, comemora a vida e mudou seus hábitos alimentares e atividades diárias. Ela percorreu o caminho na busca por uma vida saudável.
A decisão pela mudança de comportamento pode acontecer por várias razões: motivação após um trauma, necessidade e até amor por exercícios. A estudante de nutrição , se encaixa em todos eles. Há 10 anos, ela superou a Síndrome de Guillain-Barré, situação que a fez mudar os próprios hábitos, escolher a profissão e entrar para o 'mundo fitness'
A síndrome rara é quela em que o sistema imunológico ataca os nervos e que pode gerar paralisia. Gabriela, Praia Grande, no litoral sul de São Paulo, relata que ficou mais de 40 dias internada, sendo 15 deles intubada. Após receber alta da Santa Casa de Santos, também na Baixada Santista, iniciou o processo de recuperação motora e então se apaixonou pelo estilo de vida.
"Eu falava para mim mesma após a doença: 'Preciso me cuidar, preciso treinar, preciso ter saúde para não ter de novo, pois a minha imunidade não pode cair'. Então, realmente era o que eu colocava na minha cabeça, que eu precisava daquilo", lembra.
A DOENÇA - Gabriella relata que os primeiros sintomas apareceram logo após se recuperar de uma dengue. "Eu fiquei muito debilitada por conta disso mas, quando melhorei, decidi sair de casa e ir com a minha mãe até uma churrascaria em Santos. No dia seguinte, comecei a ter muitos formigamentos no meu pé. Eles pioraram com o passar dos dias, e então passei a ter dificuldade para andar”.
Depois de consultar um médico particular, ela recebeu a notícia que deveria ser internada com urgência. "Na hora, foi um susto. Ele me passou o encaminhamento, e fui direto para um quarto quando cheguei na Santa Casa. Eles fizeram o exame para ter o diagnóstico, e eu já estava com dificuldade para engolir a minha própria saliva [por conta da paralisação dos membros]".
Gabriella foi encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital. Ela disse que os médicos decidiram pela intubação após relatar falta de ar. "Ligaram para avisar a minha mãe de madrugada, e ela foi até lá transtornada, pois pensava que eu tinha morrido. Depois disso, só lembro de 'sonhos'. Eu ouvia os médicos e enfermeiras conversando. Até hoje eu não sei dizer se eram alucinações. Sonhei com anjos, 'vi' as pessoas orando por mim”.
Ao acordar, a estudante teve mais um momento difícil:Gabriella não conseguia se mexer seus braços e pernas. “Eu falava com muita dificuldade por conta desse tempo todo que eu fiquei intubada”disse.
Depois de ser encaminhada ao quarto, foi iniciado o processo de recuperação. “O tempo todo eu fui muito positiva, e em nenhum momento achei que eu ia ficar daquele jeito. Sabia que seria passageiro, que tudo aquilo passaria”, explicou.
Mesmo com o pensamento positivo, o retorno das atividades motoras foi lento. "Em um dia, eu consegui abotoar um botão da minha roupa, no outro, pegar um garfo e comer sozinha. Virei um bebê. Fora isso, fiquei com o rosto ‘torto’, e tive que fazer fisioterapia até nele”, contou.
Uma vez que recebeu alta no hospital, as sessões eram feitas duas vezes por dia. “Lembro que nesse tempo eu fiquei muito, muito magra. Eu não tinha músculos nas pernas e tinha um andar bem ‘robótico’, me apoiando nas paredes”.
Meses depois, continuou a recuperação na hidroterapia e, em seguida, na academia, mas com exercícios leves. “Comecei a fazer e pegar amor pela musculação. Me interessei também por comidas saudáveis, e então comecei a mudar o meu estilo de vida”.
FALA A CIÊNCIA - De acordo com o médico neurocirurgião João Luis Cabral Júnior, a Síndrome de Guillain-Barré é uma doença autoimune - quando o sistema imunológico do corpo ataca células saudáveis.
“Ela é caracterizada pelo quadro de fraqueza ascendente. Começa pelos pés e vai subindo. O paciente tem formigamentos, e eles evoluem para o déficit motor. Pode gerar insuficiência respiratória, e então levar a intubação. A doença pode ser desencadeada por uma infecção viral ou bacteriana”, explica.
Cabral Júnior acrescenta que, inclusive, a síndrome pode ser considerada “extremamente rara” e que não há cura. “A recuperação pode demorar semanas, meses ou anos. A maioria das pessoas sobrevive e se recupera completamente. Os sintomas de fraqueza podem persistir por muitos anos”.
O neurologista Juarez Harding, assim que diagnóstico é dado, o paciente deve ser “internado prontamente, ainda nos primeiros dias de sintomas, para receber o tratamento o quanto antes e estancar o processo autoimune”, disse.